
Com o aproximar do fim do ano, as mangueiras e outras árvores frutíferas, anunciavam, com seus variados tipos e colorações vistosas, a chegada de um novo carnaval. Um enfeite natural para nossa cidade. Era um grande desfile de mangas, e outras frutas, célebres, prontas para serem comidas.
Nos barracões eram só agitação. Tropas de elites e socialites ficavam exasperadas com as costureiras. E nos barracos outra tropa de elite exasperada exasperavam.
Uma comitiva de gringos ruborizados pelo sol tiravam fotos exóticas, enquanto nativos tentavam tirar as fotos deles. Na Lapa, nas praias e nos bares da zona sul só davam eles. Eram os reis do Rio. E os nativos, num ímpeto de miscigenação migratória, disputavam a incursão nessa fidalguia estrangeira. Esse é o nosso Cio de Janeiro.
O carnaval, que poderia ser chamado de Reveillon Tropical, pois o ano só começa depois dele, é uma linha tênue e divisória que delimita antíteses. Particularmente, não gosto muito do carnaval, mas já gostei muito. Afinal, quem nunca ficou bêbado cantando aquelas memoráveis marchinhas e os sambas da União da Ilha pelos blocos de rua...
“O rei mandou cair dentro da fobia, e lá vou eu...” Hoje é fobia, mas antigamente era folia mesmo.
Em falar em rei, está passando na TV o prefeito entregando a chave da cidade para o Rei Momo. Onde ele conseguiu essa chave?! Falaram que ela estava na mão de milicianos... Ih! Olha o Rei Momo! Coitado! Tão magrinho! Os tempos mudaram mesmo.
E os nababescos engarrafamentos em direção à Região dos Lagos que começavam na Ponte? Quem nunca os enfrentou? Mas, nesse carnaval vou botar para quebrar, malandro! Sinto que estou na hora de ressentir as coisas que consideravam boas.“Segura a marimba”!
Peguei minha agenda e comecei a listar os possíveis amigos foliões, ou amigos, porém ex-foliões. Mirandinha largou a pelada, passou a ser chamar Pastor Miranda, residente do Grajaú e possuidor de três filhos e uma esposa sovina. Acriano depois de suas experiências lisérgicas nos anos 70 foi do yuppie ao hippie; colocava qualquer playboy freqüentador de rave no chinelo. Conseguiu vencer a muralha nada intransponível do denotativo para o conotativo e virou andarilho. JPé-de-atleta foi para Iguabinha com a família e com certeza está aproveitando a festa da carne para fazer um churrasco, uns não atendem, outros mudaram de endereço, de telefone e de mundo. O que resta agora?
Todos eram chatos demais para me acompanhar. Então, fui sozinho para o Bola. Eu sabia que a natureza um dia iria tomar o seu espaço de volta. A Rio Branco virou um mar, revolvido, e num processo de ressaca. Fui levado por uma forte onda para o tumulto, na qual brancos, negros, crianças, velhos, pobres, futuros emergentes e punguistas deleitavam-se e derretiam-se no maçarico sonoro e solar.
Embriagado de emoção e cerveja continuei, num gesto quase impetuoso, vencer os limites do meu corpo e segui em frente para um próximo evento carnavalesco. Infiltrado num cortejo gay, ou travestidos de mulheres, fui por debaixo da terra até chegar em Ipanema, para ser mais preciso na Banda de Ipanema. Chegando lá, me desvirtuei daquele séquito, pois as coisas estavam ficando sérias demais. E fiquei à deriva naquele mar de gente.
Na altura do campeonato, já estava para lá de Istambul, uma coisa hedionda era minha figura, e a dos que me circundavam. Uma babel em pleno Rio. Na minha frente um aborígine fantasiado, ou fantasiado de aborígine, com um lança, feria-se e aos seus companheiros. Casais se apertavam, outros apertavam e outros afogavam-se, eu estava inserido nesta horda.
Depois de muito curtir, senti uma aguda sensação estranha no abdômen. Busquei em meu HD a associação daquele incômodo com uma possível palavra; depois de tanto penar, digo, pensar veio uma em cheio... Fome. Corri para um ambulante e degustei o mais tradicional e saboroso petisco da culinária das vias públicas, o churrasquinho de gato. Acho que ele estava vivo, pois desceu arranhando-me e quando chegou em meu estômago ficou revirando-se e evitando o contato com a água, no caso cerveja. Aquela hostilidade estomacal fez-me expelir a única alimentação do dia. Depois disso, reparei que outras pessoas, talvez num gesto solidário, fizeram o mesmo. Até uma bacana no alto de um prédio chamou o Raul, parecia até a cascata do Merídian.
Depois da sessão escatologia fui curtir minha ressaca num banco, deitado. Um desfile de elefantes e girafas montadas por lindas mulatas cruzam a Vieira Souto ao som de pratos, arpas, violinos, cuícas, trompetes e ganzás e a frente desta improvável banda um enorme frango de padaria personificado, besuntado e purpurinado de farofa evoluía. O som dos pratos é ensurdecedor. Negros em indumentárias africanas arquetipadas exibiam passos de guerra em coreografia regida por um veado de chifres ramificados. Enquanto, isso os elefantes em sincronia jorram água... Começa a chover, levanto do banco ainda sonolento, na rua o trânsito já estava liberado, a noite já havia caído e deve ter sido na minha cabeça.
- Que dor de cabeça infernal, nunca mais vou beber.
E foi isso os restantes dos dias do carnaval. Bloco, cerveja e algumas mulheres até terça-feira. A rotina só foi quebrada quando acordo em cinzas na quarta e percebo que tenho que trabalhar o meio expediente. Que estupidez! Desço no Largo da Carioca e sigo em direção a Avenida Rio Branco quando subitamente um pierrô salta em minha frente e entrega-me um papel que dizia:
- “Compro ouro, cautelas, jóias em geral...”
O ano havia começado.
Revisora: Mariana Lima
Arte: Laerte Heredia

