– Quinze para as oito!
– Obrigado!
– Aleluias!
– Glória, glória, glória...
– Puta que pariu!
– Três. Quatro. Um. Lona!
– BALA É DEZ, BALA É DEZ!
– Próxima estação Engenho de Dentro, estação de transferência para os ramais...
Soltou meia pessoa e subiram 20.
Dizem os evangélicos que ela tinha entrado em transe, mas com aquele calor todos ficaram em dúvida diante daquele diagnóstico. Paulinha era uma menina anoréxica por falta de opção. Sonhava em não ser modelo, de ignorância e da falta de esperança. Andava de trem para ir à escola. Na noite anterior viu o muro de sua casa virar uma grande escritura em braile, que dizia: “Aqui jaz a esperança”. As autoridades locais deslocadas não conseguiram captar a mensagem de longe, pois só quem é da área que sente, que tateia. O calor, a gritaria, a fome, a preocupação e o apagão. Paulão além de coagir os camelôs, ajudava na remoção de baixas que a viagem proporcionava.
O trem segue viagem e passa pelo Méier, sem parar, e da porta que estava aberta...
O guarda limava. Os felizardos que passavam no processo seletivo eram socorridos pelos Deuses de branco. Bradou:
– O dotô avisô que só entra quem tiver sangrano héin!
Uma agitação e uma senhora no auge dos seus cento e poucos quilos esperneia:
– Ora vejam, Liquinho tá com a perna quebrada, não tá sangrano e vai ser atendido...
Outro tumulto, um princípio de briga, e nessa efervescência Paulinho consegue sorrateiramente entrar. Já na sala do médico, que de cabeça baixa estava e de cabeça baixa ficou, anotava alguma coisa. Falou que estava com dor no corpo, muita febre...
– Isso é uma virose, tome antibiótico...
– Mas...
– Passar bem, PRÓXIMOOOO!
Com a receita em mão, foi pegar o antibiótico na farmácia do próprio Hospital, e para o seu não espanto o remédio estava em falta. Saiu de lá revoltado. O médico nem o examinou, só sabia que ele era homem pelo seu timbre de voz, nem olhou para cara dele. Da mesma forma que entrou ele saiu, com dor no corpo, febre e agora depressivo.
Paulo já não sabia qual era o seu suor, parecia até que estava jogando a sua rotineira pelada de domingo, mas dela restara somente as dores no corpo. Aquele suor era do trem, de segunda-feira. Uma mão na chupeta e a outra segura uma pasta. A mão da chupeta portava um relógio que servia de consulta para os que estavam perto, e para os que estavam longe somente as consultas verbais mesmo:
– Cinco para as oito!
– Obrigado.
– Próxima estação São Cristóvão estação de transferência...
Descem alguns, ficam outros, os remanescentes. O trem retoma, avança e antes de chegar no terminal, dá uma parada habitual demorando mais aquele fardo.
Paula que se apoiava numa perna só em cima de um salto alto já estava exausta, já tinha gasto praticamente toda a energia reservada para o trabalho de secretária de um consultório dentário.
- Estação Central do Brasil, estação terminal, desembarque por ambos os lados.
A grandiosa “viagem ao centro da Terra” Carioquilis nos revela as profundezas subumanas, sub-remuneradas, subnutridas, subservientes e submersas numa praia sem mar, de somente areia. A viagem ao centro da “terra”. Quem cava acha o tesouro ou afunda-se mais ainda.
Paulos, Paulas, brasileiros e cariocas que tem em comum: a esperança.
– Obrigado!
– Aleluias!
– Glória, glória, glória...
– Puta que pariu!
– Três. Quatro. Um. Lona!
– BALA É DEZ, BALA É DEZ!
– Próxima estação Engenho de Dentro, estação de transferência para os ramais...
Soltou meia pessoa e subiram 20.
Dizem os evangélicos que ela tinha entrado em transe, mas com aquele calor todos ficaram em dúvida diante daquele diagnóstico. Paulinha era uma menina anoréxica por falta de opção. Sonhava em não ser modelo, de ignorância e da falta de esperança. Andava de trem para ir à escola. Na noite anterior viu o muro de sua casa virar uma grande escritura em braile, que dizia: “Aqui jaz a esperança”. As autoridades locais deslocadas não conseguiram captar a mensagem de longe, pois só quem é da área que sente, que tateia. O calor, a gritaria, a fome, a preocupação e o apagão. Paulão além de coagir os camelôs, ajudava na remoção de baixas que a viagem proporcionava.
O trem segue viagem e passa pelo Méier, sem parar, e da porta que estava aberta...
O guarda limava. Os felizardos que passavam no processo seletivo eram socorridos pelos Deuses de branco. Bradou:
– O dotô avisô que só entra quem tiver sangrano héin!
Uma agitação e uma senhora no auge dos seus cento e poucos quilos esperneia:
– Ora vejam, Liquinho tá com a perna quebrada, não tá sangrano e vai ser atendido...
Outro tumulto, um princípio de briga, e nessa efervescência Paulinho consegue sorrateiramente entrar. Já na sala do médico, que de cabeça baixa estava e de cabeça baixa ficou, anotava alguma coisa. Falou que estava com dor no corpo, muita febre...
– Isso é uma virose, tome antibiótico...
– Mas...
– Passar bem, PRÓXIMOOOO!
Com a receita em mão, foi pegar o antibiótico na farmácia do próprio Hospital, e para o seu não espanto o remédio estava em falta. Saiu de lá revoltado. O médico nem o examinou, só sabia que ele era homem pelo seu timbre de voz, nem olhou para cara dele. Da mesma forma que entrou ele saiu, com dor no corpo, febre e agora depressivo.
Paulo já não sabia qual era o seu suor, parecia até que estava jogando a sua rotineira pelada de domingo, mas dela restara somente as dores no corpo. Aquele suor era do trem, de segunda-feira. Uma mão na chupeta e a outra segura uma pasta. A mão da chupeta portava um relógio que servia de consulta para os que estavam perto, e para os que estavam longe somente as consultas verbais mesmo:
– Cinco para as oito!
– Obrigado.
– Próxima estação São Cristóvão estação de transferência...
Descem alguns, ficam outros, os remanescentes. O trem retoma, avança e antes de chegar no terminal, dá uma parada habitual demorando mais aquele fardo.
Paula que se apoiava numa perna só em cima de um salto alto já estava exausta, já tinha gasto praticamente toda a energia reservada para o trabalho de secretária de um consultório dentário.
- Estação Central do Brasil, estação terminal, desembarque por ambos os lados.
A grandiosa “viagem ao centro da Terra” Carioquilis nos revela as profundezas subumanas, sub-remuneradas, subnutridas, subservientes e submersas numa praia sem mar, de somente areia. A viagem ao centro da “terra”. Quem cava acha o tesouro ou afunda-se mais ainda.
Paulos, Paulas, brasileiros e cariocas que tem em comum: a esperança.
*foto original: José Cruz / ABr
Revisora: Mariana Lima
Arte: Laerte Heredia

