- Boa noite!
Ele não queria estar ali, sentia-se medíocre. Chovia, poças no chão. Um carro passa espirrando água para os lados e uma gota cai ao lado do seu olho esquerdo. Retorna de seus tormentos e pensa em responder o boa noite, mas o prazo de validade havia expirado.
As luzes passavam em flash. A cada buraco que passava era uma martelada no prego que estava em seu peito. Doía e prendia. Relutava contra aquele sentimento de aprisionamento. Não queria estar à mercê das intempéries de uma pessoa, mas já estava. Sentia-se pequeno, um menino. Nunca viu o futuro atormentar tanto, o futuro era o presente. Presente de grego!
Um acanalhado e seu comparsa dirigiam sua vida nesse momento. Queria ele próprio ser o redeador de sua vida. Não agüentava mais, de manhã, de tarde e de noite; a cada passo, desde pequeno, nunca o conduzira. E isso o mordiscava aos poucos. Pouco a pouco, ia conquistando suas glórias que eram grandes para si, porém vagarosas e atemporais para outrem. Subia uma escada passo a passo, porém o ponto no qual gostaria de chegar, avançava em espaçamentos maiores.
Via em grande tela vidas iguais a sua. Tristezas, felicidades, sucessos, insucessos... Tudo coabitava nele, como em todos, mas para ele, pelo menos naquele momento, eram carregados de significados e reflexões. Um pingo era letra, pontuações, frases... Um pingo é chuva. Fechou a janela. Janela que revelava um mundo no qual ele já esteve e não queria estar, fechou a janela e as possibilidades. O ser humano é o mesmo desde os primórdios, contudo só recebeu uma mão de verniz, uns mais que os outros. Na rua, gente apressada corria da chuva.
A chuva, os fins de semana, a vida social fazia-o revirar em inquietudes. Suas divagações o tornavam chato. A pé não se chegava mais lá, e quando chegava não tinha mais clima para chegar. Em uma desacertada, ou acertada vez, em um bar do subúrbio da Central, me emputeci e soltei o verbo:
- Largue a porra dessa mulher e compre um carro!

