terça-feira, 14 de outubro de 2008

Teo


Chegou com sua camisa furta-cor de flores e frutos equatoriais, na qual os dois primeiros botões abertos revelavam um reluzente cordão de ouro que continha na medalha à impressão de dois santos gêmeos. No rosto um Ray-Ban de lentes escuras desfigurava e escondia sua fisionomia. As crianças o adoravam. Todas as vezes que ele chegava, elas iam ao encontro dele para beijar a sua mão. E não era diferente comigo. Uma vez fui beijá-la e deparei com um anelão de ouro cravejado de diamantes com um “T” inscrito, enquanto segurava sua mão, demoradamente, para ver seu anel, ele a retirou bruscamente e suspendeu, afetadamente, a sobrancelha direita por detrás do Ray-Ban. Foi a primeira vez que senti coabitar em mim o frio das mãos e a quentura do rosto, era o medo. Possuía os cabelos e a barba brancos sempre bem penteados e aparados. Exalava um olor que parecia ser expelido por todas as diversas flores de sua camisa. Era cercado de anjos-da-guarda. Uma certa vez um bêbado sobressaltado disse alguns disparates em língua hermética perto dele, e nunca mais eu o vi nem bêbado e nem sóbrio. Onipresente, oniparente e onipotente por intermédio de alguns. Concebeu em sete, catorze, vinte e um e em diversos dias todas vielas com suas veredas tropicais. Calçava ruas, descalçava alguns, iluminava as ruas, apagava alguns e assim por diante. Era os três Poderes, menos o Executivo, pois esse era por conta de seus anjos. Até eu entender isso foi difícil, até porque tinha apenas seis anos de idade. Entender que num mesmo local não poderiam ocorrer tantas desgraças e tragédias. Que cabeça a minha, achar que no terreno baldio, perto do campo de futebol, as pessoas sempre se acidentavam ali. Inclusive aquele bêbado foi achado lá, estirado no chão, olhando para o céu e sem piscar. Caminhava com, e descaminhava, as virgens Marias, a de Lourdes, a de Fátima, das Dores, das Graças... “Graças a ele” era a expressão que mais se ouvia. Fui crescendo, aprendi a escrever e contar em talões. E num dilúvio consegui sair de perto do céu e desci com 25 animais, e todas essas lembranças surgiram porque meu filho de seis anos perguntou-me quem era Deus.


Revisora: Mariana Lima
Arte: Laerte Heredia

12 comentários:

Leandro disse...

Muito bom Dudu, parabéns pelo texto... Cabelos ralos, santos gêmeos no peito... vislumbro uma pessoa com essa descrição.
Grande abraço e continue mandando brasa.

Celita disse...

E Deus era Juvenal Antena!O dono da Portelinha.hauhauhauha

Ótimo conto.É bem legal esse jeito que a gente vê o mundo e as pessoas quando é criança.É um olhar mais singelo e generoso, mas onde ao mesmo tempo se misturam bem e mal,medo e admiração,e assim vai.
Agora me responda quem é Teo?
É o camarada dono do anel?
Axé!

Achado de Anis disse...

E Deus era...
Quem é Deus? Pois, se for esse Deus punitivo como é preconizado, pq Deus, fazendo jus ao nome, ñ pode ser o Teo? Da mesma forma q ele era benevolente e punia, ao seu critério logicamente. Creio q o Teo é a referência q temos de superioridade. Lembrando q essa concepção é de uma criança de 6 anos. E a imagem ao meu ver é uma mera menção.

Anônimo disse...

Bela imagem por sinal! E um bom conto tb!
E de meu agrado.

laerte_paiva disse...

Imagem exelente e um conto razoável.
kkkkkkkkkkkkk! claro que é brincadeira meu talentoso amigo, passo para lhe dar os parabéns, ótima atitude e vamos em frente sem refugar!
bjão!

Palestra disse...

adoreeei o conto ! diferente :D

Guerreiro de Odin disse...

Deus não tem endereço
Quem está com Deus não tem medo
Deus não tem religião
Deus é meio pagão

Deus não tem Deus
Deus não gosta de ateus
Quem crê em Deus
Não teme os filhos teus

Deus dos sem deuses
Deus semideus
Deus dos homens
Homem de Deus
Deus quase homem
Homem quase Deus

Luiz disse...

Fala, Eduardo!

No último texto, você já tinha provado ser capaz de nos transportar no espaço e no tempo. Neste último, podemos notar a sua capacidade de materializar um personagem em nossas mentes. Cheguei a sentir medo do carcará!
Parabéns e siga em frente!

Abraços,
Luiz Vasconcellos.

Gabeira disse...

E viva o teocentrismo antropocentrico do deus teo, tão homem, tão santo, tão teo...! Mas aí Deus teve o diabo da idéia de criar o homem, sua imagem e semelhança, bagunçando o universo...terra de Deus, terra de homem....

Eduardo Martins disse...

"O que é isso, companheiro?" O Rio é seu...

xuxa disse...

viu eu tb posso comentar!

Klotz disse...

Admiro um contador de histórias que convença. Você foi convincente.