quarta-feira, 14 de abril de 2010

O fatalismo chegou aqui?*


Vivemos em tempos de ostracismos. Cada vez mais estamos entrincheirados. Os muros que nos protegem estão cada vez mais altos. Fechar-se é o remédio utilizado. Não saímos de nossa redoma por medo de assalto, da chuva, do Sol, de preços altos e de gente. Fugimos de uma realidade utilizando a artimanha egoísta. Primeiro eu e em segundo a minha pessoa. Porém, encontraram um elixir para sanar os nossos déficits de relacionamento que são: orkut, facebook, twitter, msn etc. Essas ferramentas nos auxiliam a encontrar novos e antigos amigos ou simplesmente comunicar-se. Amigos que se foram? Pergunta o desavisado. Um amigo nunca vai, responde o astuto. Então, quem são aquelas mais de 500 pessoas de sua página pessoal? Ué! Não posso conhecer novas pessoas nas comunidades que participo?! Perguntou respondendo. Você participa de todas as comunidades adicionadas? Perguntou o malicioso. Ééé! Bom! Incucou-se. Atrás dessas ferramentas somos os sorridentes, os viajados, os divertidos, os bonitos, os desinibidos, os amáveis ou simplesmente somos. O exibicionismo da perfeição. Somos os melhores! E quando saímos da virtualidade para o mundo real, registramos esses momentos como se fossem os últimos, e tudo vira material de divulgação. E quando digo tudo é tudo mesmo. O advento das câmeras digitais e de celulares, que tem de tudo e até fazem ligação, geraram uma febre de invasão da vida pessoal do outro hiperbolicamente. Tudo é registrado, inclusive a própria vida. Um grande GPS público. Você brigou com o(a) fulano(a), nê?! Indagou. E franziu o semblante o(a) perguntado(a). E que li no twitter, no status do seu msn e tem vídeos do combate no youtube, justificou o perguntador. Somos as celebridades de um mundo restrito e falseado. Sabemos quem dos nossos amigos, que inclusive não nos falamos pessoalmente por puro desleixo, estão casados ou namorando ou solteiro, se trabalha ou não, se mora sozinho ou ainda com os pais, se tem carro ou não, se fez faculdade ou não et cetera. Pelas comunidades, que tão mais para forjar um esteriótipo no qual realmente gostaríamos de ser, sabemos os gostos e até possíveis atitudes. Mimetizamos poses e gestos. São estrelinhas e coraçõezinhos manuais feitos por milhares de pessoas. Ser diferente é tão normal. Todos vão para o mesmo lugar, usam a mesma roupa, o mesmo adereço, tiram as mesmas fotos... Uma sociedade fardada para o fardo de caminhar caminhos. Todos falam a mesma gíria, uma produção fordista de jargões. Todos tem o mesmo sonho. Talvez o sonho de transpor a virtualidade para o real? Faço votos disso.

*Texto publicado em um jornal destinado ao Ensino Médio de um Escola Particular no Rio de Janeiro.

6 comentários:

Ricardo Valente disse...

Muitos desconhecem um abraço amigo... e terapêutico!
Cada vez mais estamos afundados em um mundo artificial, onírico, virtual.
Gostei bastante do post!

Meu pensamento nessa pessoa: Eduardo Martins

\\\\\\\\\\\\\\fui

Achado de Anis disse...

Se aventurando nas crônicas nê?! Como nos temos o dom p/ deturpar as "benfeitorias". Os aviões lançam bombas, a internet rouba o tempo e senhas bancárias...
"Faço votos" de mais crônicas.
abraço

João Gilberto disse...

Um texto tinhoso, engenhoso, genial.

Muito bom esse texto Eduardo.

Celita disse...

Um texto tinhoso!(2)
Vou ali excluir minhas cinco contas em sites de relacionamento e já volto pra comentar!
Peraí!

Sentimentalidades-Todas disse...

Estou perto de quem está distante. Estou distante -e por muitas vezes inacessivel - de quem está perto.

Valores e sentimentos reinventados, deturpados, corrompidos, simulados...

se isso é a revolução da informação, torço para que possamos chegar ainda seres humanos numa revolução do sentir verdadeiramente

Mas eu hei de usar o proprio venenmo para achar a cura

Luiz disse...

Não tenho personalidade, mas tenho perfil.É mais fácil: não preciso nem mais virar a cara na rua, posso simplesmente fingir que não vi, até bloquear? Mas não fique triste comigo, afinal de contas, não fui eu, foi meu alter ego, aquele bom sujeito que é condena a fome, a maldade e o egoísmo. Aquele que é contra o aborto, mas não pode engravidar. Enfim, é aquela entidade "superculta", entendida de todas as ciências e que já leu todos os livros de todos os maiores escritores que já passaram pela face da Terra. Mas não queira falar disso comigo. Se quiser, pergunte para meu perfil, de preferência, pelo msn. Dessa forma, ele pode consultar o google e te responder qualquer coisa...